Os criadores de coincidências, de Yoav Blum

Por Cecilia Fernandes - segunda-feira, setembro 10, 2018


Resenha literária é um gênero textual que não pratico muito, principalmente aqui no blog, mas tenho necessidade e interesse em desenvolver. A quantidade de livros que leio continua aumentando e a preguiça toma conta quando penso em escrever sobre as histórias que tive contato, entretanto, a melhor forma de começar é aproveitando um dia com motivação para produzir. A temática dessa tentativa de resenha literária é Os criadores de coincidências, do escritor israelense Yoav Blum.
Sinopse: E se o trem que você perdeu, o café que derrubou, o bilhete que encontrou não forem eventos aleatórios? E se o destino do mundo estiver sendo manipulado por pessoas especializadas em criar acasos? Neste romance do israelense Yoav Blum, o destino é o protagonista - mas ele não depende de sorte ou intervenção divina. Emily, Eric e Guy trabalham numa espécie sobrenatural de organização secreta há alguns anos. Eles estudaram disciplinas como interferências em sonhos, distribuição de sorte e como ser amigos imaginários, até se tornarem criadores de coincidências. Agora, de tempos em tempos, recebem complexas missões a serem executadas. 

Seu trabalho é permanecer na área cinzenta entre destino e livre arbítrio, onde eles criam situações que criam situações que criam mais situações que darão origem a pensamentos e decisões, gerando os mais diversos resultados: o encontro de almas gêmeas, invenções que podem mudar o mundo, a inspiração que dará origem a obras-primas. Mas, quando Guy recebe uma missão especial, que vai além daquilo que ele acredita poder fazer, as coisas começam a se mover de forma a mudar tudo o que os criadores de coincidências entendem sobre a vida e a verdadeira natureza do amor. Um thriller improvável sobre os operários invisíveis que mantêm girando as engrenagens do acaso.

A narrativa desenvolve a história de Emily, Eric e Guy no cotidiano dos seus empregos não ortodoxos. Apesar de serem agentes, atuando entre o destino e o livre arbítrio, entre os acontecimentos e as escolhas das pessoas comuns, os personagens são seres que sentem fome, sono, emoções humanas. Cada um deles tem uma trajetória de vida individual, com histórias de amor, experiências que moldaram suas personalidades, o diferencial entre eles e seus clientes é a capacidade de ver além do tecido da realidade, compreendendo as conexões humanas de uma forma técnica e a relação entre os elementos inanimados e os indivíduos. 

Guy é profissional em coincidências românticas, algo que se especializou logo de início pela sua visão romântica da realidade, sua história de amor do passado e a perspectiva sobre esse sentimento. Emily, mais racional que emocional, realiza coincidências relacionadas à profissão, mudança de estilo de vida, decisões mais técnicas como o método que adota para trabalhar. Eric é o criador de coincidência ativo, quase excessivamente, tomando atitudes arriscadas e raramente trabalhando dentro do quadro de regras que constituem a profissão. Os três mantêm uma amizade ligada pelo emprego, mas também pelas semelhanças que se escondem nas profundezas das próprias personalidades.


Se eu fosse resumir o livro em uma citação seria a de William Shakespeare, em Hamlet: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia". O livro aborda sobre profissões sobrenaturais que compõe a realidade humana, sobre o que há além do que vemos com nossos olhos e tocamos com nossas mãos. Dentro dessa perspectiva ficcional, quase religiosa, o livro possui uma história densa e uma narrativa repleta de metáforas e questionamentos sobre a vida real. Todos os mistérios se desenrolam próximo ao fm, respondendo questionamentos que surgem durante a leitura, esclarecendo questões apresentadas inicialmente como independentes.  Apesar de ser uma ficção, com teor sobrenatural inicialmente a quem lê a sinopse, a história dialoga muito mais sobre a realidade. 

Durante o desenvolvimento do enredo, o leitor é questionado a respeito do que o amor, o que na vida é realmente livre arbítrio, quais são as forças que existem além do que vemos, se há destino ou apenas uma sequência de escolhas desembocando em uma escolha maior por meio de reflexões trazidas pelos personagens. É uma leitura envolvente, você se vê consumindo o livro com facilidade para compreender os mistérios apresentados e passa a se questionar se realmente existem as profissões apresentadas no livro, tanto os criadores de coincidência quanto os amigos imaginários, desenvolvedores de sonhos entre outros apresentados superficialmente. 

O livro apresenta alguns pontos negativos. Por exemplo, por se constituir como uma narrativa com mistérios que se desenvolvem próximo ao climáx, os flashbacks do curso no meio da sequência dos fatos cria uma quebra de narração frustrante, capazes até de fazer o leitor pular aquela sessão que é parte integrante da história. Além disso, o conteúdo a respeito dos manuais dos criadores de coincidência, dos livros que leram durante o curso e as teorias relacionadas ao exercício da profissão poderiam ser facilmente anexados ao fim da história, colocados na história com opção de consulta, ao invés de interromperem a leitura com longos parágrafos. Esses conteúdos adicionados entre a narração principal acrescentam pouco à história e diminuem a velocidade de leitura, justamente pela quebra de expectativa e narração desnecessárias.   

Apesar disso, nas últimas cem páginas o livro chega ao seu ápice e permanece nele com uma constância admirável. Yoav Blum segue o caminho inverso dos escritores que alcançam o clímax e permitem que o sentimento criado por esse ponto caia pela monotonia que o livro toma até o final esperado. Isso ocorre tanto pelo seu estilo de escrita quanto pelo fato de que o final do livro, apesar de seguir a linha dos romances, apresenta elementos que surpreenderam a mim. Ao terminar a leitura, abracei o livro e soltei um suspiro, relendo imediatamente algumas partes que havia marcado para refletir depois.
 
É um livro reflexivo e questionador. As reflexões surgem a partir das falas dos personagens, pelas histórias que contam e pela teoria do "existem dois tipos de pessoa" apresentadas durante os capítulos e as quebras de narração. Os questionamentos vêm como consequência, você começa a se questionar se alguns acontecimentos em sua vida, como quando você reencontrou um amigo de escola em um lugar inesperado ou se atrasou para um evento e acabou se prevenindo de uma situação desagradável, são ações acidentais. O interessante é que esses questionamentos, de um livro relacionado à criadores de coincidência, permeiam a dúvida se existe acaso, coincidência ou se além do tecido da realidade encontram-se forças desconhecidas manipulando os acontecimentos.

Apesar de ser uma leitura fácil, optei por seguir um ritmo tranquilo, absorvendo cada parte da história e buscando ampliar o contexto ficcional e aplicá-lo em minha vida. Indico esse processo de leitura não somente pela densidade da narrativa, mas pela amplitude de questões que surgem a cada capítulo. 

Yoav Blum, escritor e programador de software israelense, em seu livro de estreia inaugura uma escrita que confunde o leitor entre realidade e ficção, instigando-o a aprofundar-se em suas palavras. O desejo pelo fim do livro Os criadores de coincidência, tradicional em romances, é deixada de lado pelo caminho que o antecipa, pela solução de mistérios e o aprofundamento psicológico dos personagens próximo ao fim, indo na contramão de uma narrativa que apresenta os personagens como um todo logo no início. 

Dados
Nome: Os criadores de Coincidências
Autor: Yoav Blum
Editora: Planeta
Lançamento: 2014
Nº de páginas: 320
Classificação: 

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