Série: Anne with an E

Por Cecilia Fernandes - quarta-feira, agosto 08, 2018


Quem me segue no Twitter pessoal provavelmente leu meu manifesto em poucos caracteres valorizando essa produção da Netflix, infelizmente ameaçada de ser cancelada pela falta de audiência. Ao me acostumar com o número de palavras que Anne fala na série consegui terminar de assistir ao episódios disponíveis, apenas assim fui capaz compreender o entusiasmo das pessoas que subiram hashtags em defesa da série, fazendo campanha gratuita por uma história cuja continuação é essencial, pelos motivos que apresentarei a seguir. 

Estava pensando em assistir há tempo e devido o número de indicações, vídeos aparecendo nas redes sociais, anúncios e imagens surgindo a respeito dessa história na internet eu optei por iniciar uma curta, porém significativa e reflexiva maratona de Anne with an E (no português brasileiro, Anne com E). Escrevi uma resenha a respeito do seriado para aprender mais sobre o gênero textual e decidi postá-la aqui também. #WakeUpandWatchAnnE

Anne Shirley é uma órfã de 13 anos, com incontáveis palavras longas na ponta da língua e uma imaginação fértil como os campos de Green Gables, uma fazenda localizada na cidade fictícia de Avonlea no final do século 19. Após a morte dos pais quando tinha poucos meses de vida, a protagonista passou a viver em um orfanato repleto de crianças cruéis que a menosprezavam pela sua personalidade e pelo costume de criar histórias para fugir da dura realidade que vivia. Apesar de ter sido adotada temporariamente como criada de uma família com oito crianças, um mãe negligente e um pai violento, a morte do patriarca motivou seu retorno ao orfanato, até que sua adoção fosse encaminhada aos irmãos Cuthbert em Green Gables.

A chegada de Anne à Ilha de Príncipe Eduardo, província do Canadá, ocorre por acidente quando os solteirões Marilla e Matthew Cuthbert decidem adotar um garoto órfão, buscando um auxiliar nas atividades da fazenda para aliviar o trabalho sobre o ombro do irmão mais novo entre os dois adultos. Devido a uma confusão, o orfanato de Nova Escócia envia Anne por acreditar que os irmãos requisitaram uma garota e logo nos primeiros episódios é narrado o conflito desse acidente e a luta da protagonista para permanecer com os irmãos a qualquer custo.

Com cabelos do tom mais ruivo possível, sardas espalhadas pelo rosto e enormes olhos azuis, Anne conquista aos poucos o coração dos responsáveis adotivos e das pessoas ao seu redor. Entre inventar personagens para suas brincadeiras, criar nomes para cada local da fazenda e escrever histórias fantasiosas com suas amigas, Anne demonstra sensibilidade a cada ação e superação diária dos acontecimentos do passado. Apaixonada por literatura e palavras, o amadurecimento da protagonista e dos demais personagens como resultado da convivência com a órfã desenvolve a história a cada episódio.
(imagem via adorocinema)
Baseada no romance “Anne de Green Gables” escrito por Lucy Maud Montgomery, a série iniciada em 2017 pela Netflix e roteirizada por Moira Walley-Beckett possuí duas temporadas na plataforma e atualmente está ameaçada de ser cancelada devido à falta de audiência. “Anne with an E” é uma produção que cativa os telespectadores pela sensibilidade da protagonista assim como pelo espírito livre que a atriz Amybeth McNuty incorpora à personagem, além disso, a conexão entre as histórias e especificidades de cada integrante da narrativa compõe o cenário da virada do século XIX para o século XX.

O diálogo com questões históricas deste período permite o acesso ao conhecimento da realidade da época, embora ficcional no que diz respeito as localidades e personalidades. As discussões a respeito do direito das mulheres, ao racismo da sociedade após o início do processo de abolição da escravatura em 1793, a segregação racial, ao homossexualismo velado, à formação da identidade durante o período de transição da infância para a adolescência, o desenvolvimento das cidades com as locomotivas a vapor e inúmeras outras questões associadas à vida em sociedade e à vida de uma criança desperta reflexões a respeito do que mudou e do que permanece nos dias atuais.
(imagem via romper)
As paisagens e a fotografia são elementos que completam a composição e tornam essa série incrível. Ambientada majoritariamente num cenário campestre, as paisagens naturais e a simplicidade dos cenários criam um sentimento bucólico e nostálgico a respeito do cotidiano dos personagens. A direção conduz a sequência dos eventos harmonizando os cenários com as estações, as vestimentas tradicionais, as emoções e acontecimentos das cenas de forma a entrelaçar cada aspecto da história e equilibrá-los de forma transmitir diferentes sensações visuais. 

Quando há mortes, aparece em foco a neve, a noite, os silêncios longos, as casas vazias, as fotos antigas penduradas nas paredes, as árvores secas e memórias dos personagens. Quando há felicidade, existem flores, nascer do sol, animais se movimentando, árvores frondosas com sombras extensas, o som do lago em movimento. Quando há angústia, o foco é a velocidade de um cavalo que trota em direção à estação de trem, as folhas no chão voando pelo caminho, o movimento da fumaça da locomotiva, os passos decididos dos adultos em contraste com os arrastados de um personagem, o brilho de uma vela em um quarto vazio.
(imagem via CONTIoutra)
“Anne with an E” é um espetáculo de composição, narrativa e sensibilidade. Ao explorar o incomum, a visão de uma criança sobre o mundo, sua perspectiva sobre o amor, sobre a dor, sobre a realidade que vive, a série explora também os telespectadores provocando riso com as descobertas de Anne na puberdade e tristeza com seus medos em relação ao futuro. Tenho indicado esta produção àqueles que conheço não somente na intenção de divulgar um seriado incrível em ameaça de extinção, mas também para compartilhar com outros os sentimentos que tomaram conta de mim durante as semanas maratonando os episódios disponíveis na Netflix.

Como diz Anne Shirley-Cuthbert: “grandes palavras são necessárias para compartilhar grandes ideias” e ao concluir esse texto penso que é exatamente isso que a produção é: uma enorme palavra sendo soletrada pelos personagens e compreendida pelo público.

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