O amor por trás da autossuficiência

segunda-feira, junho 12, 2017 Cecilia Fernandes 0 Comments



O mês de junho é marcado pelas tradicionais festas juninas e também pelo famoso Dia dos Namorados, que é comemorado hoje mesmo. Ontem eu vi o vídeo da incrível Louie Ponto conversando sobre relacionamentos com seus inscritos, questionando o pensamento presente na sociedade de que a nossa felicidade está em outra pessoa, refletindo sobre a cadeia de opiniões padrões relacionadas ao fato de que uma pessoa deve estar num relacionamento ou então na procura de algum. As reflexões que ela provocou em mim foram suficientes para me instigar a vir falar disso aqui, não somente para divulgar a importante mensagem dela, mas para compartilhar meus próprios pensamentos acerca do tema. 

Projetar sua felicidade no próximo, buscando reconhecimento numa tentativa de fortalecer a própria autoestima, associar a felicidade à companhia e quase nunca a si mesmo é um hábito comum entre as pessoas. A sociedade, embora tenha enfrentado transformações, é fundamentada sobre valores tradicionais ligados ao casamento, à família, aos relacionamentos estáveis e principalmente às ideias envolvendo a tal da alma gêmea, a tampa da panela, a metade da laranja etc. A normalização e a romantização da concepção de que somos seres incompletos cria um pensamento muito insano que associa o estar sozinho com a solidão e a tristeza, como se fosse uma obrigação inerente à vontade de cada um estar em uma relação estável. 

Quando meu primeiro relacionamento veio ao fim, muitos amigos estabeleceram um julgamento claro relacionado ao fato da minha personalidade ser difícil de lidar, afirmando que havia algo errado comigo ou com meu antigo parceiro, que eu precisava mudar meu jeito de ser para atender ao que é "normal" para as pessoas, que eu iria entrar em uma outra relação em pouco tempo para "não correr o risco de ficar sozinha". Eu ouvi incomodada muitas opiniões relacionadas a um processo que somente eu entendi, enfrentei e senti, mas acabei não pensando muito sobre elas porque as encarei como uma tentativa de me ajudar a superar e de me fazer sentir melhor por causa do término. Somente quando cheguei à constatação do erro que cometi comigo mesma ao associar minha felicidade inteira sobre a pessoa com quem me relacionei, pude perceber a gravidade dos comentários e que o incômodo era motivado principalmente por discordar do que me foi dito.

Reconhecer que eu sou lar de sentimentos bons e redentora da minha própria felicidade me permitiu ver quão enraizada nas pessoas é essa ideia de que ser feliz sozinho é impossível, uma ideia difundida pelas músicas, pelas mídias e entre as gerações como uma herança. Reaprender sobre quem eu sou me fez perceber como eu comecei a julgar minha própria personalidade, como se fosse minha responsabilidade o que acontece com aqueles que se relacionam comigo, simplesmente porque estava dando ouvidos à padrões de pensamentos que não correspondem ao que eu acredito. 

É possível e necessário aprender ser feliz sozinho, é preciso entrar em relacionamentos com a consciência de que no final você vai ter a si mesmo, é preciso aprender que a reciprocidade mais importante é a pessoal, aquela que fomenta e cura toda decepção por transforma-las em aprendizado. Não me refiro somente a relacionamentos amorosos, somos acostumados a depositar nossa felicidade até mesmo em amigos ou em nossos familiares, construindo uma visão utópica de que eles são perfeitos e nunca irão embora, depositando nossas expectativas e felicidade sobre as pessoas como se elas fossem responsáveis por algo que nos é inato.

Eu acreditava com todas as minhas forças que a expressão pura do amor envolvia essa entrega completa a outra pessoa, que amar era apostar todas as suas fichas em alguém e perder noção de si mesmo para entrelaçar-se ao sentimento, transformando aquilo na única certeza inabalável em minha vida. Criei meu chão sobre esse conceito apenas para perceber da pior forma possível como eu estava errada, atravessando a desilusão e a decepção para encontrar a mim mesma e ver que o amor próprio é verdade mais certa que me pertence

O perigo por trás desse pensamento não permite o mal somente a si mesmo, como também acaba permitindo que certas situações dentro de um relacionamento passem em branco. Comportamentos abusivos, atitudes negativas e posturas desnecessárias tornam-se normais àqueles que preferem estar com alguém, a gente acaba percebendo isso eventualmente, mas nada é feito por acreditar que essas atitudes fazem parte do que é estar com alguém. Não, não faz parte. Não vale a pena permanecer com alguém que te faça mal, que te trate e destrate como bem quiser, que utiliza da sua personalidade para passar por cima de você, que te faz como ponte aos próprios fins, não vale a pena enfrentar situações como essa por temer ficar sozinho. A melhor companhia que temos é a nossa e não é justo trair a si mesmo para enquadrar-se a algo que não te corresponde. 

Eu não escrevo esse texto amargurada com um término ou por estar fora de uma relação, tenho plena noção de quão incrível é estar num relacionamento, quão bom é poder dividir seu mundo com outra pessoa e criar sentimentos por ela também, mas no Dia dos Namorados a pressão de estar com alguém se torna esmagadora e você acaba percebendo certas coisas que antes passavam despercebidas. Não tem problema "ser solteirona", "ficar para titia", "casar as amigas" ou qualquer coisa desagradável que já tenha sido dita sobre o fato de se estar sozinho, é melhor estar consigo do que com alguém que não seja capaz de fazer parte do Universo que tu és

Me agrada poder ir ao cinema com quem gosto, assim como me agrada ir ao cinema sozinha, sair sozinha, permanecer num parque repleto de casais com um bom livro e a minha própria companhia. Não quero desvalorizar ou soar como alguém que deixou de acreditar no amor, muito admiro esse sentimento e acredito que o amor próprio é uma das várias manifestações dele, uma manifestação que deve ser a origem de todas as outras formas de amar existentes. 

Estar sozinho não é a mesma coisa que ser sozinho, é uma escolha tão normal quanto a de quem escolhe estar em um ou em vários, primeiro porque a escolha de alguém não diz respeito a ninguém além de quem toma a decisão e segundo porque a necessidade de normalizar a autossuficiência é gritante numa sociedade que romantiza o abuso como parte da realidade das relações atuais. É indispensável, estando dentro ou fora de um relacionamento, aprender a curtir a si mesmo um pouco, seja por meio de um passeio, de um momento em casa ou vestindo-se da forma que mais lhe agrada. 

Portanto, esteja dito nesse dia dos namorados que o amor é incrível, mas o amor próprio é o piso indestrutível que devemos construir sobre nossos pés. O amor próprio é matéria prima da felicidade e de um amadurecimento capaz de transformar os sentimentos e as relações em experiências incríveis, não somente em uma necessidade irracional com finais negativos. 

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