2017

sexta-feira, janeiro 06, 2017 Cecilia Fernandes 0 Comments


A foto que ilustra esse texto foi tirada por mim, no dia primeiro de janeiro de dois mil e dezessete. Eram quatro horas da manhã quando acordei meu irmão e meu pai para irmos à praia na intenção de ver o primeiro nascer do sol do ano no litoral da Bahia, sentados nas pedras de uma das praias mais bonitas de Itacaré. Tirei fotos de cada um dos momentos desde que o céu encheu-se da cor rosa até o momento em que o sol abraçou todos os que estavam ali com seus raios, indicando o começo de mais um dia, de mais um ano e de mais um ciclo na vida de todos. 

Lá estava eu, sentada com minha câmera em mãos, vendo as ondas baterem nas pedras, sentindo o vento levar de mim tudo que 2016 trouxe de bom e de ruim, deixando a brisa do mar acalmar meu coração acelerado pelos meus pensamentos ansiosos, pelos meus medos desmedidos, minhas inseguranças pessoais e memórias criadas durante o ano que havia acabado, dando lugar a novas oportunidades. Lá estava eu, pensando no meu enorme medo em relação a mudanças e recomeços. Lá estava eu, na praia, pensando nesse texto que escrevo aqui. Eu nunca havia parado para entender meu medo em relação a mudar e recomeçar, mas foi por conta das horas que permaneci pensando que consegui estruturar ideias capazes de formar a mensagem que tento levar àqueles que leem meu texto. 

A ideia inteira em torno de um novo ano reside nas novas possibilidades e oportunidades de errar, e também de acertar, já o meu medo reside na insegurança em relação a errar, porque mesmo sabendo que faz parte, que eu não sou perfeita e incapaz de não errar nunca, a remota possibilidade de falhar e acabar gerando um contingente de mágoas, decepções, irritações e intrigas me dá um embrulho na barriga grande o bastante para me fazer temer, e consequentemente errar. É como se todo meu medo de errar acabasse me levando justamente a isso, uma espécie de Complexo de Édipo¹ na vida real de uma adolescente de dezesseis anos. 

Outro incômodo em relação a essa questão de mudanças é reflexo da minha mais pura e sincera ansiedade. A noção de que mudanças e recomeços incluem passos pequenos, esforços diários e pequenas doses de vontade a cada dia existe em mim, junto com a ansiedade, o amor por passos grandes, longas doses e esforços enormes em prol de um resultado rápido. Diante da consciência da famosa frase dos meus pais "você não nasceu sabendo andar, aprendeu caindo com passos curtos até conseguir por conta própria como se fosse a coisa mais fácil do mundo" permito-me respirar fundo e aceitar a condição das coisas.  

Eu tenho medo de mudanças, tenho medo das possibilidades em torno delas. Talvez pela minha mania de querer saber e controlar tudo a fim de evitar negatividades, talvez pela minha ansiedade, mas sei que a simples capacidade de mudar, de não permanecer a mesma, de não parar na escada evolutiva e no tempo é uma benção. Qual seria o propósito de viver uma vida estática? Uma vida contínua, constante e retilínea sempre? Qual seria a necessidade de viver a vida como um ciclo fechado e imutável?

Foi pensando nos diversos aspectos pessoais e interiores que devia alterar, na intenção de amadurecer e crescer, que senti minha primeira crise de ansiedade do ano. Logo na primeira semana de janeiro, me permiti de chorar por motivos que nem sei explicar, e dentro de mim senti as lágrimas lavando meu rosto e minha alma depois do ano complicado e pesaroso emocionalmente que foi 2016. Senti dentro de mim que toda a minha insatisfação se sobrepunha a enormidade de coisas positivas que havia feito, como se a necessidade de mudar me mostrasse que nada do que eu havia feito prestasse, quando na verdade eu já tinha muito, eu já havia feito muito e isso deveria ser um incentivo para que eu continuasse me aperfeiçoando. 

De nada adianta listar vinte metas para esse novo ano sem voltar-se para o seu interior. Não adianta querer emagrecer cinco quilos sabendo que no final você não vai começar a se alimentar direito e se tornar mais saudável. Não adianta querer passar de ano no terceiro bimestre em dois mil e dezessete se você sabe que vai enrolar e acabar não estudando. Não adianta acumular itens, planos, metas e expectativas se o nosso interior não estiver equilibrado e disposto a mudar antes de pensar em tomar passos grandes. Acredito que mais vale cinco metas simples relacionadas ao equilíbrio mental e emocional do que dez relacionadas a dinheiro, bens materiais e aparência externa.

Escrevo esse texto com o coração aberto, disposta a abraçar e aceitar cada um dos dias desse ano, sejam eles difíceis, quentes, longos ou incríveis como eu sempre tento fazer todo dia ser. Escrevo esse texto agradecendo pela oportunidade de recomeçar, de tentar de novo, de me melhorar em todos os aspectos possíveis. Escrevo esse texto não só para mim, mas àqueles que sentem medo de mudar, seja de cidade ou a forma de lidar com a vida. Escrevo esse texto ansiosa e animada com tudo que pode acontecer, sabendo que sou suficiente como sou, mas também com a consciência de que posso melhorar um pouco a cada dia, sem pressa, sem correria de mudar. 

Eu gosto de você, 2017. E espero que você goste de mim também. 

¹ aquele rolê criado por Freud que muitos acham que é uma história louca sobre um garoto que acaba matando o pai e casando-se com a mãe, mas no final é uma enorme reflexão sobre como agir contra o andamento natural da vida de cada um acaba levando-nos justamente ao espaço que estávamos querendo evitar no início da prosa

inspirações para esse texto

0 comentários: