A geração que foge dos próprios sentimentos

domingo, julho 10, 2016 Cecilia Fernandes 0 Comments

Pois bem! Lá estava eu, no banheiro feminino da festa segurando as bolsas de algumas amigas, cumprindo meu papel de companheira enquanto esperava por elas. Naquele lugar, extremamente movimentado pelos mais diversos tipos de garotas, havia encontrado um canto para ficar, sem atrapalhar as demais moças que retocavam a maquiagem e também aquelas que simplesmente buscavam o banheiro como refúgio, para um momento de paz antes de voltar à festa e fazer sabe-se lá o que.

Entre os assuntos mais diversos que pude ouvir, acabei sendo atraída pela conversa de um grupo de garotas que compartilhavam um espelho e um único batom. Uma delas, que aparentava ser a mais nova, havia se envolvido com algum garoto da festa e diante da sua inexperiência, buscava nas amigas conselhos que a ajudassem a lidar com aquela situação. Até aí tudo bem, afinal,  é de se esperar que outras garotas da mesma turma se ajudem nessas ocasiões, mas o conselho que perdurou entre elas me deixou levemente preocupada.

No entanto, a garota mais alta entre elas opinava que seria mais estratégico não demonstrar interesse demais, deveria mesmo até manter-se razoavelmente indiferente e com atitude mais seca na intenção de dominar a situação. Desta forma, ela teria o controle em mãos e não seria desvalorizada pelo rapaz. Quando isto foi dito, as demais concordaram e  até incentivaram dizendo que elas mesmas já haviam agido assim em outras situações semelhantes, que havia funcionado, portanto, com a mais nova também funcionaria. Neste momento, percebi que conselhos como esses e suas respectivas realizações no cotidiano haviam se tornado comuns.
Pronto, estava diante de um exemplo típico de  uma geração que foge dos seus próprios sentimentos, que acredita que a não demonstração do amor é o que faz com que ele aconteça, uma geração que vê no falso desinteresse uma forma de certificar o surgimento de uma emoção, uma geração que, com isto ou através disto,  acaba fugindo dos próprios sentimentos. 

Diante da realidade que os adolescentes estão inseridos, rodeados de tecnologias, inovações e sensações computadorizadas, a carência prevalece. Creio veementemente que, por  sermos novos, inexperientes, ingênuos e muitas vezes desmedidos, nos tornamos carentes e buscamos sentimentos como os que vistos  nos filmes, livros ou músicas que estão presentes no  nosso cotidiano. Na verdade, creio que muitas vezes tentamos encontrar nesta realidade robotizada algo que seja real e que complete as próprias lacunas pessoais de alguma forma.

Por conta disto, alguns se  agarram às primeiras oportunidades que surgem buscando sentir algo concreto, ou melhor, algo real, já que o sentimento é abstrato. Dessa forma, eles acabam acreditando que agindo friamente com o outro, serão blindados das decepções causadas pela  impulsividade, e inexperiência quando o assunto é amor.
Gostar de alguém e demonstrar isto parece ter se tornado algo errado. Acredita-se hoje que quanto menos você sentir ou demonstrar o que sente, mais forte se é. Acredita-se que quanto menos demonstrações de afeto ocorrerem, mais inteligente estará sendo aquele que assim se comportar. Neste sentido, se uma pessoa demora um tempo para responder, a outra, propositalmente,  irá demorar mais ainda, se uma não “puxa assunto” a outra nem ao menos tenta, se não iniciar a conversa, a outra não irá iniciar. A questão é que não há uma  profusão sentimental nas relações de hoje em dia, já que, estas viraram um jogo, uma competição onde quem for mais frio ganha, e o esquema todo não deveria ser assim.

Apaixonar-se perdidamente, gostar de alguém, ficar com alguém ou até mesmo conhecer uma pessoa nova sem interesse sexual ou sentimental deveria ser uma oportunidade de se reinventar, de crescer, de mudar os ares e não uma forma de validar-se, de se comportar como posseiro de uma atitude que não é a sua.

Ter sentimentos e demonstra-los não deveria ser sinal de vulnerabilidade ou fraqueza, ter sentimentos não é fácil e é justamente por isso que aquele que sente abertamente deveria ser visto como uma pessoa forte. Não é fácil expor as próprias fraquezas, inseguranças e amores, assumir os próprios  medos e também as felicidades diante de pessoas que podem julgar tão facilmente quanto apoiar.
Faço parte dessa geração, e por meio da compreensão dos motivos que nos levam a agir dessa forma, busco por através  desse texto - que mais me parece um dos meus inúmeros desabafos da madrugada - convencer e mostrar a beleza que existe atrás do que quer que o amor possa nos proporcionar. Somos muito jovens para sermos tão temerosos, somos muito pequenos diante de tantos sentimentos, mas nem mesmo por isso temos de nos privar, de usar máscaras, de mostrar sermos algo que não somos.

Escrevo aqui, com toda a sinceridade do meu coração, para aquela menina do banheiro da festa, para todas as outras que se sentem perdidas no que estão vivendo e também para as demais pessoas que deixam de agir como seus corações mandam por temer a opinião alheia ou a rejeição. Peço humildemente que tentem entender o quão incrível é a capacidade que o ser humano tem de sentir tudo que sente e que nem sempre teremos a aceitação que esperamos do outro.

Na conclusão desse texto posso dizer que busco transformar o inesgotável estoque de carência e confusão que existem nos corações humanos em uma brasa que nos leve a viver como bem queremos. Quero chegar àqueles que se retraem dentro de quem são para que eles possam se libertar daquilo que os prendem. Torço para que, no final, mesmo se a decepção prevalecer e seu coração se quebrar, que você tenha aprendido um pouco mais sobre o que é amar.

inspirações para esse texto

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