Conheça: Liniker

Por Cecilia Fernandes - sexta-feira, junho 01, 2018


A postagem de hoje é sobre música brasileira, um tema que não abordo muito no blog, mas tem feito parte da minha vida com maior intensidade. Diante de tantos festivais acontecendo em Goiânia e os novos talentos emergindo no cenário local e nacional, decidi apresentar uma das minhas artistas favoritas: a Liniker. A conheci por um professor de gramática do terceiro ano, após muito enrolar e protelar acabei ouvindo as músicas, me apaixonando instantaneamente por toda a energia existente nela e em sua arte.
Nesta postagem tenho a intenção de apresentar detalhes da vida da artista, além de apresentar pontos de sua personalidade que me influenciaram, principalmente referentes à sua luta como pessoa. No final do texto, deixei minhas performances favoritas. 
Liniker de Barros, nome em homenagem do ex-jogador de futebol inglês Gary Liniker, é natural de Araraquara em São Paulo. Aos 22 anos é uma jovem que tem quebrado tabus e desconstruído padrões com sua voz repleta de traços ancestrais e uma pureza que atinge quem ouve a cada nota. Com uma família repleta de músicos, brinca com o soul e a black music para falar sobre amores intensos, etnia, identidade e as diversas paixões que possui na vida. 

Com sua banda, Liniker e os Caramelows, lançou três vídeos no Youtube em 2015 alcançando o sucesso com Zero (que atualmente conta com dezessete milhões de visualizações), Caeu e Louise du Brésil. Em seus vídeos, ela aparece utilizando saias, brincos enormes, turbantes coloridos combinando com seus batons e a forma de vivenciar a música a cada verso, é o estilo de Liniker que alcança profundamente os ouvintes e transmite as mensagens de suas músicas. 

Em uma reportagem do Cosmopolitan de 2018 a artista se afirmou como mulher trans e negra: "Me via numa coisa muito não binária. De me entender o Liniker, a Liniker. Dentro de mim sempre soube que era a Liniker. Vivi 18 anos condicionada à ideia de que era uma coisa, mas porque não conhecia outra. Entendia meu corpo diferente, mas não sabia o que era gênero, nunca tinha estudado. Com o tempo, fui amadurecendo, dando espaço para ser quem eu era, sem medo de nenhuma repressão, por mais que ela exista. Foi quando entendi que eu sou uma mulher."
(imagem via)

Quando a conheci pela primeira vez, Liniker ainda se declarava como não binário. Naquela época, não possuía conhecimento suficiente para compreender as nuances da transexualidade e a questão do binarismo de gênero, mas foi através de suas músicas e de suas entrevistas que comecei a compreender. Liniker é um símbolo que transcende a música e alcança questões de gênero, etnia, raça e humanidade, e é por isso que é considerado um grande nome da própria geração. É a partir de artistas como ela e outras vozes relacionadas - como Gloria Groove, Tássia Reis, Johnny Hooker, Sara Tavares e mais - que a realidade que vivemos é explanada, exposta e denunciada. 

Em sua apresentação da música "Flutua" com o cantor Johnny Hooker, no palco do Rock in Rio 2017, Liniker retratou abertamente sua luta pela representatividade e afirmação da sexualidade e do gênero por meio de um beijo trocado com o cantor em público. No fundo do palco, a frase Amar sem temer" brilhava em letras vermelhas, sendo uma manifestação não somente da posição política dos artistas em questão como também uma denúncia do Brasil como país que mais mata LGBTs no mundo. 

Canceriana, Liniker deixa transbordar em suas músicas um sentimentalismo e um ancestralismo que a acompanham em suas performances enquanto canta. Repleta de vida e de emoção, a cantora exala diversos tipos de energia que empoderam a si mesmo e a quem ouve, em suas músicas ela dialoga abertamente sobre sua luta contra o preconceito,  relatando a vitória diária contra a vergonha que sentia quando não compreendia seu lugar de fala, transformando sua voz em instrumento tanto cultural quanto político. 
(imagem via)
Ela canta não só pela liberdade pessoal, mas pela liberdade dos negros, dos quilombolas, dos homossexuais, transexuais e de todos os grupos deixados a margem que merecem atenção, merecem um lugar de fala pleno e seguro. Liniker transforma experiências, medos, momentos ruins, sonhos em arte, dessa forma, mostra que por meio de suas vivências encontrou-se diante de tantos limites e padrões sociais. 

Ao usar da música, a cantora fala sobre o que não é dito, utiliza de sua expressão corporal para dialogar diretamente com o público e integrar-se às mensagens na composição. A simbologia e a ambiguidade de frases marcantes em suas músicas permitem interpretações suficientes para gerar questionamentos àqueles que ouvem: um simples "a gente fica mordido, não fica amor?" cabe em diversos contextos. 

Na minha visão, a arte que gera desconforto por ser diferente do padrão é a mesma que provoca questionamentos sobre valores pessoais, é essa forma de expressão que considero tão importante nos dias atuais. É por conta da complexidade e da pluralidade que artistas como a Liniker estão em ascensão, a arte fala quando falta voz e quando ela grita para existir. 

"A arte transforma. Quando você entra de cabeça, ela tem o poder de abrir tanta coisa, de você sentir 'poxa, devia nascer fazendo arte, devia estar sempre envolvido com alguma coisa que me motivasse de verdade, que me fizesse acreditar em algo que eu construí'. Eu percebo que a arte é uma medicina da vida."
- Liniker para o portal G1 em 2015
Minhas performances favoritas

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