Carta para meu eu do futuro.

terça-feira, abril 21, 2015 Cecilia Fernandes 0 Comments


Alô, alô adeptos as teorias de viagem no tempo e possíveis admiradores de cartas improváveis
Uma das blogagens coletivas do mês de abril lá do grupo Rotaroots no facebook é criar uma carta para seu eu do futuro, eu já havia feito uma semelhante na postagem "Carta para o meu eu de cinco anos atrás" e achei super divertido escreve-la, quando vi a proposta para abril no grupo fiquei super empolgada e bem cá estou.
Por sempre gostar de cartas e de histórias envolvendo-as decidi deixar essa para a Cecília do futuro aqui, mas também a escrevi num papel e guardei-a em um lugar que somente eu daqui a alguns anos irei lembrar que existe. Espero que gostem da minha carta :)
 Goiânia - Goiás, 21 de abril de 2015

Cara Cecília do futuro, 

Não sei especificamente se escrevo para você com 20 ou 30 anos, mas cá estão minhas singelas palavras para você que sou eu numa época completamente diferente. Antes de começar essa carta eu gostaria de saber: de onde você está os carros já flutuam e as pessoas se vestem como nos filmes? Se isso estiver acontecendo toda aquela nossa teoria de que os criadores de historias futuristas são viajantes do tempo é real (#chupasociedade)

Apesar de toda brincadeira venho aqui falar sério - só um pouquinho, já que ambas sabemos que seriedade é um item que falta na nossa lista - sobre todas as inúmeras coisas que imagino para nós.  Me pergunto se você conseguiu passar em jornalismo como era planejado, se o papai e a mamãe deixaram você sair de casa, se o intercâmbio deu certo e você topou nas ruas londrinas com aquele garoto ruivo com sotaque charmoso a la príncipe Harry - se isso tiver acontecido, eu espero que ele tenha te pagado um bom chá das cinco - se você finalmente conseguiu terminar algum livro e publica-lo decentemente.

Também gostaria de perguntar se superamos todas as crises existenciais que tínhamos, desde os medos bobos até as manias mais incômodas como a onicofagia, se paramos de chorar por motivos bestas, se largamos o drama da vida e deixamos o teatro tomar conta disso, se desistimos da neura com o próprio corpo, se continuamos com medo de atravessar avenidas ou se o pavor pelas baratas foi superado com o tempo. Nós ainda apagamos a luz e corremos para cama a noite? Bem, eu espero que não.

Quero saber se você encontrou aquele carinha que todos diziam estar te esperando em algum lugar, se você se apaixonou verdadeiramente por alguém, se seu coração foi partido ou até se você quebrou o de alguém, aquela velha paixonite aguda topou com você em um mercado e isso acabou virando algo mais? Ou aquela amizade antiga hoje está do seu lado lendo a carta e procurando entender o que raios você fazia do seu tempo em um feriado? 

Sobre os velhos hábitos, espero que tenhamos superado as noites assistindo Netflix - ficaria feliz em saber que você deletou sua conta e abriu a janela para ver a luz do sol - e comendo sorvete, que tenhamos terminado de decorar o nosso quarto, que o teatro ainda esteja presente em nossa vida assim como a arte e a fotografia, mas principalmente desejo que a escrita ainda seja nossa fiel companheira nos momentos ruins, que tenhamos aprendido a cozinhar sem queimar a casa ou o dedo - espero que sim - que ainda gostemos do cheiro de livro novo e café feito na hora.

Será que você ainda vai ás livrarias e fica sentada no chão ouvindo aquele cd antigo só para tamborilar os dedos e rir sozinha? Ou continua preferindo pizza de mussarela sobre todas as outras comidas do mundo ou ainda tem medo de assistir filmes de terror. Será que você tem mania de desligar as luzes da casa e deitar olhando as estrelas ou ficar vendo imagens nas nuvens de um céu azul? Será que você ainda tem o blog, se sim, como ele está agora? Talvez você ainda chore vendo Marley & Eu e dê gargalhadas assistindo desenho animado como uma criança, ou talvez não.

Você ainda fala com a Melissa ou com a Madu? Ainda se lembra dos seus amigos do WWI ou dos amigos dos Congressos? Continua chamando seus amigos por apelidos bobos? Frequenta alguma mocidade ou tem contato com algum amigo de lá? Responde quem aparece do nada para dizer um oi e acaba ficando longas horas conversando contigo? Dá bom dia para cada pessoa que te olha na rua? Abre a porta para quem vem atrás e cede totalmente seu banco no ônibus quando ninguém o faz? Faz piadas sem graça com o Rafael chamando-o de Canetinha e falando de coisas aleatórias com ele? Por favor, fala que você ainda corrige o Stephano e ignora todos os argumentos dele quanto as mulheres. 

Quando o Breno chega vocês ainda se penduram um no outro e passam a noite conversando sobre tudo? O Henrique conseguiu comprar todos os carrinhos do quadro antigo do nosso quarto? O papai ainda tenta te carregar te chamando de "teti" rindo daquele jeito que faz o rosto dele encher-se de dobrinhas ou ainda te faz passar vergonha em público apenas para desmanchar sua cara de brava? E a mamãe? Ela briga quando você deixa o chinelo virado ou quando você saí sem dar bom dia (psiu, ela virou monge mesmo?) O tio Dudu decidiu raspar a cabeça e partir pro mosteiro ou ainda te recebe em Brasília te chamando de "orelhinha esquerda"? A tia Ivonete ainda cozinha aqueles pratos maravilhosos (eu realmente espero que ela tenha te ensinado a fazer) e te leva para andar de carro com ela? As nossas primas continuam fabulosas com suas personalidades opostas e únicas? A nossa família é realmente enorme e maravilhosa, bem, eu espero que todos estejam bem onde quer que estejam.

Eu tenho tantas perguntas que gastaria horas e muitas linhas escrevendo para você e eu não quero prender seu tempo, afinal você pode estar vivendo uma vida totalmente contrária as expectativas que criei com quinze anos sentada na cama numa terça feira qualquer de Tiradentes. Poderia pular essa parte, mas se você chegou aqui - ou se decidiu pular tudo - me responde: você é, verdadeiramente do fundo do seu coração, irrevogavelmente e definitivamente, feliz? Não vinte quatro horas durante sete dias por semana ou algo assim, mas no final do dia você dorme bem porque sabe que é feliz? 

Se você não for, tudo que criamos, fizemos, sonhamos e imaginamos foi em vão. Independente de todo seu sucesso na vida ou de todos os outros fatores externos que te rodeiam, você tem que ser acima de tudo uma mulher feliz consigo mesma e com sua própria vida. Mamãe sempre nos falou que a felicidade só depende de nós mesmos e eu espero que você ainda acredite nas frases tortas dela. 

Espero que tenhamos construído algo bom e que quando eu chegar ai possa sorrir satisfeita e me orgulhar de cada momento gasto em nossas vidas. 

Com açúcar e com afeto
Cecília Fernandes
(versão 2015)

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