Eu fui mesmo, e dai?

terça-feira, março 17, 2015 Cecilia Fernandes 0 Comments


Esse texto é para todas as pessoas que apontaram o dedo na minha cara julgando minha presença nas manifestações do dia de domingo e minhas publicações em uma rede social aberta sobre tais atividades.

Eu estava lá, na rua, no meio do barulho, da infindável aglomeração de pessoas que tomavam conta de cada canto da rua limitando cada um dos meus passos. Estava debaixo da chuva, com frio, gripada, cega por causa do excesso de água no óculos, usando uma blusa branca e fina em sinal de neutralidade sentindo aquele cheiro maravilhoso de cachorro molhado e ouvindo a pessoa a minha esquerda com uma vuvuzela martelando minha cabeça com aquelas notas finas e repetitivas que pareciam não ter fim. E eu gritei, berrei, urrei, dancei e pulei o hino nacional, o hino da bandeira, o hino da paz, as frases que incentivavam as pessoas a lutar, a saírem de sua zona de conforto e mostrar ao mundo seu ponto de vista.

Eu dei uma flor a um militar com um sorriso tímido no rosto e tive a oportunidade de receber um elogio por estar ali, sendo tão nova e lutando pelas mudanças.

Não fui porque queria ofender a presidente, porque quero vê-la na prisão, porque quero o tal do impeachment. Não, eu fui lá lutar pelos meus direitos, mostrar as pessoas em suas janelas com olhares de crítica que eu acredito no país que vivo, fui até lá gritar para todo mundo que mudanças são sim necessárias nas atuais circunstâncias, mas devem a todo custo ser bem pensadas.

Meu único pensamento enquanto caminhava naquela multidão com um cartaz engraçado era: eu estou cansada, quero mudanças, quero que vejam a voz de todas as sete mil pessoas aqui caminhando comigo, quero que atos como esse sejam considerados pelas pessoas que estão acima de mim, coordenando e ditando os caminhos que meu país irá seguir. Eu quero tudo isso e mais porque o meu futuro está sendo escrito, agora, por eles sentados em suas cadeiras acolchoadas e revestidas de um couro caro e o que eu vejo a minha frente, não é nada bom.

Vi pessoas ignorantes, cegadas pela raiva, pessoas irracionais, alienadas, guiadas pelo que a internet vende como “verdade absoluta” pedindo por uma ditadura, por uma intervenção militar, outras escrevendo impeachment errado e alguns machistas chamando a mulher que hoje senta no Palácio do Planalto em Brasília de nomes que me doem até lembrar, senti sim uma vontade incontrolável de acertar alguns com um livro enorme de história ou um dicionário, mas apenas fechei os olhos e continuei meu caminho.

Andando com pessoas que tinham os mesmo ideais que eu reconheci com muito orgulho que minha cidade oculta pessoas conscientes que não se importam nem um pouco com a chuva ou com o frio desde que estejam ali lutando por algo que acreditam. No meio de tudo aquilo eu apenas sorri admirando um lado do Brasil que se chocou comigo pela primeira vez e me envolveu em um abraço que alimentou a fonte em meu interior responsável por me tirar de casa e ir até ali.

Lógico que houve naquela multidão pessoas irracionais, mas o que me importava era o lado bom da coisa toda. Pela primeira vez eu pude assumir que o meu país, por mais bagunçado que seja, tem sim um lado bom que supera o ruim. Eu havia ido lá apenas para observar e acabei me envolvendo em um ato que me deixou rouca e cansada, mas encheu meu peito de um sentimento até antes inexplorado: o orgulho.

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