Conto: 301

domingo, outubro 05, 2014 Cecilia Fernandes 0 Comments


No apartamento 301 da rua 10 relógio o tiquetaqueia na parede repetidamente enquanto os passos nervosos ecoam no piso amadeirado como uma desgovernada dança de sapateado.
O tecido do terno pesa sobre os ombros carregados de tensão pinicando levemente a pele necessitada de sol, os fios de cabelo que antes se encontravam organizados fio por fio em um penteado arrojado carregado de gel trazem agora aspectos que lembram um completo pandemônio, encontram-se espalhados para todo o lado embora ainda com resquícios do gel barato comprado na mercearia da esquina com uma nota de dois reais amassada no fundo do bolso da calça jeans puída e surrada, a testa se franze automaticamente, como se estivesse acostumado com tal ação e um lampejo de uma gota de suor passa por ali sutilmente dando apenas uma sensação breve de desconforto, os lábios secos sussurram palavras inaudíveis que procuram organizar o turbilhão de pensamentos que fluem na mesma velocidade que as mãos se movem tateando todas as superfícies possíveis em busca do objeto perdido.
O cheiro de café recém-passado está impregnado no ar revirando a barriga vazia do rapaz que deseja apenas sentar-se em sua velha mesa emadeirada rusticamente, assistir ao noticiário e bebericar goles rápidos do café amargo posto em uma xícara branca dada por sua mãe com os escritos “filho nº 1” um dos itens que se encontra na lista de piores presentes dados por sua mãe depois de um suéter de natal com uma grande rena no meio cujo nariz está ridiculamente saltado para fora da veste e uma almofada de crochê feita por ela no seu aniversário de 24 anos com a frase “Obrigada pelas três horas no hospital”, como se já não fosse suficiente o presente, ele havia sido obrigado na época a deixar aquilo exposto em sua sala improvisada até a velha senhora com fios brancos e rosto manchado pelo sol das horas de trabalho árduo retornar a pequena cidade de onde o rapaz havia saído. O prato pintado por uma das ex-namoradas é preenchido com uma fatia gelada de pizza que foi encontrada após uma longa caça na geladeira de cor estou-com-preguiça-de-limpar do mancebo que encontra-se constantemente repleta de porcarias das típicas e comuns noites de ociosidade passadas em frente a TV durante a transmissão de uma série da longa lista de “programas para se assistir” feita por ele em um domingo vago.
Um ruído soa em um canto afastado dentro do minúsculo apartamento, após alguns segundos o ruído continua e o rapaz associa o incômodo som ao tilintar de seu celular que toca insistentemente de forma maçante e levemente irritante dentro de alguma Porta para Nárnia no meio da bagunça do rapaz. A repetição do toque força o rapaz a largar sua atividade e rumar em direção a sala desorganizada composta por um sofá repleto de manchas de doces, refrigerantes, gordura e substâncias não classificadas pela ciência, um tapete velho retirado da casa da avó após sua passagem, uma poltrona recostável de vinte pratas comprada em um bazar de garagem que antes ficava no porão da casa dos pais e um hack emadeirado com resquícios de velhice e mofo que sustenta a velha Sony black triniton de 15 polegadas profissionalizada em travar durante épicas finais dos torneios de futebol e momentos drásticos dos filmes emocionantes que passam na tv aberta. Empurrando violentamente todas as almofadas – inclusive a dada por sua mãe – o rapaz encontra, entre embalagens de chocolate barato e pacotes vazios de petiscos gordurosos, o seu velho celular protegido por uma capa meia boca e com uma tela arranhada pelos inúmeros tombos e acidentes de percurso causados pela pressa durante o dia. Ao erguer o celular para – finalmente – atender a chamada da estúpida criatura que tem a capacidade de lotar seu histórico de chamadas antes das dez da manhã, o tilintar para. Simples e tão suavemente quanto à gota de suor que desce da nuca do rapaz e desce até o pescoço envolto por um nó mal feito de sua gravata tom goiaba, forçando-se a inalar uma mínima quantidade de ar para oxigenar o cérebro o protagonista acaba jogando-se no sofá forçando a mente a ignorar a quantidade de poeira densa que elevou-se e misturou-se ao ar com tal ato.
Embaixo de si sente um incômodo causado por algo que não deveria estar lá, movimenta-se sutilmente para a esquerda para que a sensação se afaste e permita que ele sinta a irritação fluir junto com o seu sangue naquela manhã de segunda feira cinzenta, mas a dita ação só faz com que o incômodo aumente. Suficientemente frustrado ergue o corpo e leva as mãos quentes para as costas sentindo os dedos envolverem uma pasta de textura lisa avolumada pela quantidade de materiais armazenadas internamente, o rapaz sente um breve choque de contentamento passar pelo seu corpo arrepiando sua pele assim que vê a etiqueta na pasta de tom esverdeado claro com as palavras “Relatórios para a Segunda”
Com um pulo, ergue-se do sofá sem nem ao menos se importar com a bagunça das almofadas lançadas ao tapete ou com a camada de poeira que o seguiu durante o ato, aquele cenário complementava a decoração natural de todo o apartamento. Por meio de passos largos e pisadas fortes causadas pelo mocassim escurecido e velho em seus pés comprados em outro bazar de garagem aleatório e pago com uma nota de vinte amassada do fundo de outra calça puída e surrada, o rapaz chega até a maleta de trabalho presenteada pelo pai, um dos raros e poucos presentes dados pelo homem baixinho e carrancudo com seu bigode pomposo inspirado em um dos atores de novela mexicana antiga, e com um movimento de mão abre-a guardando cuidadosamente a pasta no seu interior
Recolhe as chaves com chaveiros e bagulhetes de mais bazares de garagem aleatórios pertencente ao seu velho companheiro de guerra: um opala ss branco com traçados negros reformado pelo rapaz com peças de inúmeros outros carros destruídos encontrados no Ferro- Velho do Tom onde ele ficava durante sua adolescência, procurando peças, observando a destruição de materiais antigos e a criação de novos. Avança – finalmente – até a porta fechada que sustenta um porta casaco tão bagunçado quando o resto da residência, olhando para a casa o rapaz sorri segurando a maçaneta e em seguida bate a porta fortemente correndo em direção das escadarias.
No apartamento 301 da rua 10 o silêncio reina, um café esfria dentro de uma caneca branca, uma mosca pousa sobre um prato pintado com uma fatia gelada de pizza, uma fina camada de poeira cobre os móveis e os objetos bagunçados por todos os cantos, uma almofada detestável está jogada no canto de um sofá manchado e um relógio tiquetaqueia repetidamente na parte. 

Escrito por: C. Carvalho
Editado e revisado por: Breno Fernandes

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